sábado, 3 de dezembro de 2011

vagarosamente

Vê! Ninguém vê! Será que ninguém vê o fogo que invade as ruas, que bate nas portas, que rasga telhado e se afoga nas bocas, nos pés, na saia de rosários; que lambe o chão em jato surdo e se enlaça em fita nos tornozelos cansados. Sopro de vento que sobe pelas coxas e agarra as costas com as mãos de fogo certeiro e se espalha e domina em arabescos de chamas, violento com força em laço vermelho; e se alastra e invade como água sem limite, nem forma. Vê, olha o fogo que arde, que queima, o fogo vivo e a obra cheia.

Tudo acontece de vagar, depois de que cai rapidamente. O silêncio e a zoada da chuva a abraçam solidamente assim na cama, sem sonhos, vazia. Ainda lhe resta o som da chuva. As crianças sorriem no quarto ao lado e ela virava de lado. Levantou-se como a gata que se espicha no canto. Era feliz assim, vagarosamente, flutuando. Olha a janela e procura o vento, uma criança imagina e fala. A sala úmida transpira a chuva, o silêncio. Sentou-se e observou o café que evapora com a chuva sobre a xícara. Liberdade seria sair pelo mundo a fora sem eira nem beira? Não. O telefonema tem o valor de um abraço e conota responsabilidade. Liberdade seria saltar de para-quedas numa imensidão azul, com o vento cortando as faces, mergulhada no silêncio e na plenitude do ser? Talvez. Muitas batidas no coração. Liberdade é poder pensar e ser o tamanho do pensamento. Ir além. Liberdade está trancada ali dentro na fumaça do café. No cheiro do colchão. Na zoada da chuva, no silêncio, no movimento vagaroso das pestanas. Liberdade é imaginária e nasce dentro como todas as outras sensações. Uma atmosfera morna reina na casa. Tomou um gole de café. Primeiro a rapidez e a entrega. Agora a lentidão. As decisões se espalham pelo ar e esperam a chuva passar.

Levantou-se do sofá com a xícara de café quente nas mãos. O chão ainda estava frio e ela ainda insistia em encontrar aquele sutil, invisível e singelo toque dentro da sua única e minúscula concha pulsante, o que a fazia mexer pé ante pé de encontro ao muro do destino. Palavras, onde encontrá-las?

As crianças ainda brincavam no quarto, a chuva respingava na janela, o vento balançava as folhas do coqueiro, da mangueira e do cajueiro. Decidiu ligar a TV, quem sabe encontraria na mediocridade da vida comum uma palavra simples, tão simples quanto sua felicidade enquanto signo em existência, e lhe daria, finalmente, a força do primeiro verso, o grão de feijão que pesa no papel e o domina.

Andou até a cozinha. Abriu a geladeira como se procurasse por algo. Esticando os olhos, achou a panela de sopa. Será que as crianças já estariam com fome?

Ainda eram cinco horas da tarde, mas pareciam mais, talvez por consequência do termômetro neutro da chuva. Encostou-se no balcão. Sim, estava feliz e tranquila, diga-se de passagem. Possuía o mundo em suas mãos, como as árvores do jardim aos seus frutos. Mas, perdera o verso.

A liberdade escorria pela janela, pelo vidro. Podia senti-la tão certamente como acordava todos os dias pela manhã. Não sei porquê, mas olhou seus pés e lembrou-se das estrelas. Bebeu outro gole de café não tão quente. Onde fora mesmo que encontrara aquele céu tão estrelado? Não sabia, não lembrava. Lembrava da imagem tão clara como as sensações que emanava de sua pele: o suor. Eita! Não o tinha naquele momento, mas bem o conhecia.

O que perdera com minhas decisões de pedra em água? Nada! Vulgos elogios, falsas sensações, talvez companhia imaginária. E o que ganhara? A força violenta da vida que veste meus chinelos, que invade em estado de sol invadindo o horizonte. Vê? Ninguém vê que a chuva por impedir que a chama invisível titubeasse a sua porta. Não, na sua não.

Mas as flores já existiam e brilhavam antes da admiração, antes de receberem nomes, classificações e cuidados. São primitivas, selvagens e sobrevivem a qualquer tempestade.

As labaredas não dançariam nas barras dessas saias. A água invadia, tombava, caia, lavava as ruas. Esse rio ainda há de transbordar. Ô, se há! Bebeu água agora. Atravessou o corredor de vagar, no ritmo do assobio. Examinou as crianças. Sim, eram felizes! Brincavam. Qual seria a palavra ideal para sustentar um verso?

As flores abrem cada uma ao seu tempo. O tempo é sempre certo. O segredo é enxergar o tempo certo das coisas. Elas acontecem e sabem quando acontecem. Quando acontecem, celebram. As mães esperam. As mulheres anseiam e ultrapassam, aceleram, forçam o tempo das descobertas. Erram e sabem, reconhecem, camuflam e explodem - nem sempre celebrações! Os homens fazem qualquer coisa a qualquer tempo, contanto que supram as reverberações fálicas, faliciosas - shiiiiiiiiiiiii - de cunho naturalista, animalesco, austrolopitequianos.

Sempre fora assim e sempre será assim. O mundo continua redondo e invadido por fenômenos fora de cogitação que assustadoramente e de repente carrega consigo todo um enigma.

Deitou-se numa das camas das crianças. Na mesinha ao lado havia um anjo. Um desses anjinhos de plástico, típicos enfeites de árvores de natal de camelô. Mas ela sabia e conhecia que uma das crianças acreditava, tinha fé naquela imagem. E aquele anjo era tudo que ela poderia oferecer… Pegou o anjo e o examinou enquanto pensava. Será? Como acreditar que Deus criara o mundo para dois seres antagônicos: Adão e Eva. Um estúpido e a outra, bem, ousada, curiosa. Sabia disso. Enxergava as coisas e seus graus mais profundos com tanta nitidez que testava continuamente o sufoco de limitar-se apenas a sua minúscula concha para evitar grandes distúrbios que rompam o equilíbrio harmônico dos seres que a cercam em seu nicho. Ela era uma pequena Eva - bem o sabia.

Sentou-se e sorriu. As crianças corresponderam. Ela continuou a segurar o anjo, mas… Evinha, talvez, imaginava. Qual seria a palavra mesmo para sustentar aquele verso? Pensando mais, deveria ser uma palavra livre de regência, como ela, livre de ambiguidades, mas plural em significância, tinha de ser transitiva, ou auto-suficiente, intransitiva, ou talvez apenas uma ligação entre o nome e a característica. Não importa. Afinal nós que fazemos nossa língua, nós que a conjugamos no tempo e no modo que quisermos, para isso que serve a democracia. Pensava. Nós conscientes em fogo e água, em mulher e homem, Adão e Eva e Vida. Nós que ousamos ora patinhos feios, ora cisnes, somos, sempre somos sempre. Somos completos em vida e dor e angústia e alegria e vida e morte e vida, mas… Faltava-lhe ainda o verso. Foi esquentar a sopa.


Um comentário:

  1. Seus textos são tão lindos. E são tão intensos, amei. Sempre que sentir saudade sua, vou vi aqui ler um deles. Beeijos.

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